quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Deadpool



No começo de Deadpool, filme baseado nos quadrinhos da Marvel, o personagem que dá nome ao longa-metragem conversa com a plateia: "Você deve estar se perguntando: mas meu namorado me falou que esse era um filme de super-herói". Interpretado por Ryan Reynolds (Lanterna Verde), Deadpool está em busca de vingança, e não de justiça (ou salvar o mundo). Entretanto, apesar de tirar sarro dos filmes de super-herói, o trabalho dirigido por Tim Miller não escapa de ser um deles.


Na trama, Wade Wilson é um criminoso que atua fazendo pequenos favores: amedrontando garotos obcecados por alguma garota, por exemplo. Quando conhece a prostituta Wanessa (Morena Baccarin), os dois se apaixonam, e a relação, recheada de aventuras sexuais, é atrapalhada quando Wade é diagnosticado com um câncer terminal. Diante de uma proposta para curar a sua doença, o homem acaba parando nas mãos do mercenário Francis (Ed Skrein), interessado em mudá-lo geneticamente para torná-lo seu escravo no crime. Tudo dá errado e Wade é dado como morto - entretanto, ele está mais vivo do que nunca: com o poder de se regenerar, Wade se torna Deadpool e parte para a vingança, com o objetivo de consertar a única coisa que seu corpo não consegue - o seu rosto, que ficou completamente desfigurado. 

Tentando subverter as franquias saídas dos quadrinhos, Deadpool usa e abusa de palavrões e piadas de cunho sexual. O contato do personagem com o público, com piadas às vezes com o próprio filme (algumas muito boas, por sinal), também é frequente, e dá certo charme ao filme e ao personagem principal. As piadinhas e a autorreferência estão aí desde a abertura, quando os créditos não trazem os nomes dos envolvidos no filme e sim, digamos, "algumas verdades" - melhor deixar a piada para o filme. Além disso, a obra inclui muitas referências pop (muitas, inclusive, a outros filmes do mesmo estúdio, a 20th Century Fox, como 127 HorasBusca Implacável e a franquia X-Men).

Deadpool é um filme charmoso e engraçado. O personagem principal, um errante, cativa. Mas o longa-metragem peca um pouco pelo excesso: como é de praxe nos filmes da Marvel, há muitas cenas de ação, o que resulta em momentos um tanto tediosos. Em certo ponto, até as tiradas do personagem principal acabam cansando. E aí se percebe o quanto Deadpool, apesar de ser ousado ao ponto de colocar o seu protagonista fazendo sexo anal, por exemplo, ainda é um filme de super-herói, mesmo que o seu protagonista diga o contrário: todo o clímax se desenvolve para salvar a mocinha - e, para isso, o personagem contará com a ajuda de sua equipe, formada por dois mutantes, não muito simpáticos para o público. Mas isso o próprio filme explica, com bom humor: o estúdio não tinha dinheiro para chamar uns X-Men melhores.   

| Gabriel Fabri

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Tirando o Atraso



Garotas de biquíni, jovens musculosos sem camisa, muitas drogas, álcool, sol e música eletrônica: parece um paraíso hedonístico, mas trata-se da "semana de saco cheio" nos EUA, o tradicional spring break. Esse período de festas já foi retratado recentemente no brilhante Spring Break - Garotas Perigosas, de Harmony Korine, e agora é cenário para uma bem-humorada aventura entre avô e neto em Tirando o Atraso, de Dan Mazer. 





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  • Dick Kelly (Robert De Niro) acaba de ficar viúvo, após uma eternidade casado. No dia do funeral de sua esposa, ele obriga o seu neto Jason (Zac Efron) a levá-lo de carro até a sua casa de veraneio - isso, uma semana antes do casamento do garoto. Entretanto, Dick tem outros planos, que definitivamente não incluem um retiro solitário: após 15 anos sem fazer sexo, ele precisa da ajuda do neto para conseguir transar. Para a sorte de ambos, eles encontram no caminho uma velha amiga de Jason, Shadia (Zoey Deutch), cuja melhor amiga, Lenore (Aubrey Plaza), quer riscar "transar com um professor" de sua lista de desejos - e foi como um professor aposentado que Dick se apresenta para elas. O destino da viagem dos dois é então alterado para uma cidade praiana, onde um spring break acontece. 

    Apesar de começar forçando piadas sem graça, o segundo longa-metragem de Dan Mazer (ele dirigiu a comédia Dou-lhes Um Ano e foi roteirista de Borat) logo mostra a que veio. É só a viagem entre avô e neto começar que a dupla, em sintonia, conquista o público com muito humor - 90%, é claro, são piadas de cunho sexual. Embora um dos momentos mais hilários seja ver Zac Efron dançando pelado (vestindo apenas uma abelha de pelúcia cobrindo os genitais), De Niro rouba a cena, com uma atuação espontânea e muitas piadas na ponta da língua. Uma surpresa interessante é a personagem Lenore: ela personifica a mulher dos sonhos de toda pessoa interessada apenas em sexo sem compromisso. Por ser tão exagerada e irreal, acaba se tornando muito engraçada, um elemento cômico do filme que funciona muito bem. Parece saída de um pornô, afinal. 

    Mas o filme vai muito além do esperado e surpreende: mesmo sendo politicamente incorreto e não ter vergonha disso, Tirando o Atraso traz uma boa mensagem sobre aproveitar a vida - e não exatamente da maneira como o espectador imagina. No fundo, é também um filme sobre família. E que fique claro: ser politicamente incorreto não é ruim quando se tem um material de qualidade e criativo em mãos. E aqui, há boas piadas com todos: sobre falar ou não nigger, gíria usada entre negros e que é considerada ofensiva se falada por brancos (e que Jason aconselha Dick categoricamente a não falar em hipótese alguma, vale ressaltar), ou mesmo brincadeiras com homossexualidade - para depois, em um momento surpreendente, Dick sair em defesa de um personagem gay, o que, geralmente, não se esperaria de uma comédia onde o personagem principal tem como objetivo transar com uma garota uns 40 anos mais nova. 

    Tirando o Atraso é escrachado, politicamente incorreto e criativo. Não é para todos os públicos, mas, quem embarcar na ideia, com certeza vai se divertir.   

    | Gabriel Fabri

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    segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

    Sia - This Is Acting



    Adele, Beyoncé, Rihanna, Katy Perry, Kelly Clarkson, Christina Aguilera, Carly Rae Jepsen, Pitbull, Ne-Yo - a lista de artistas que já entraram em estúdio com a australiana Sia Furler ou que encomendaram uma de suas canções é grande, reunindo os maiores nomes da música pop atualmente. Desde que despontou com a canção "Titanium", do DJ francês David Guetta, e levou Rihanna ao topo das paradas com "Diamonds", Sia se tornou uma das queridinhas da indústria fonográfica norte-americana. Seu sétimo álbum de estúdio, This Is Acting, é o segundo fruto de seu trabalho em compor para os gigantes da música, em busca do hit perfeito.



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  • Assim como o seu trabalho anterior, 1000 Forms of Fear, que fez sucesso com as canções "Chandeliere "Elastic Heart" (originalmente oferecidas para Katy Perry), This Is Acting reúne 13 canções que foram oferecidas para outros artistas e descartadas por eles - a única exceção é a balada "One Million Bullets". Por isso, em cada canção, Sia assume uma persona diferente, como sugere o título do CD.

    O conceito de This is Acting revela um pouco de como funciona a indústria: acampamentos de compositores (no caso específico da cantora Beyoncé) e músicas sob encomendas. Em entrevista a Rolling Stones, Sia revelou que chegou no estúdio para compor com Rihanna e Kanye West e encontrou bilhetes sobre como eles queriam a música. "Mas é hilário porque eu vou lá, mas eles quase nunca aparecem", declarou. Pelo menos duas canções destinadas à Rihanna estão no álbum de Sia, e são excelentes: a melhor é "Reaper", que Sia admite ter incluído na tracklist apenas porque o seu empresário gosta dela, e a outra é a divertida "Cheap Thrills". As duas são a cara da cantora de Barbados, que recentemente esteve novamente com Sia para ouvir 25 de suas canções e, quem sabe, gravar alguma para o seu oitavo álbum, ANTi. Nenhuma das composições de Sia foi selecionada para o CD lançado um dia antes de This is Acting

    É difícil escolher uma canção para destacar quando o CD inteiro, apesar das diferentes sonoridades, soa igual: canções poderosas, com rimas fáceis e que grudam na cabeça - não é a toa que Sia é a compositora mais requisitada da atualidade, ao lado de alguns produtores que também compõem, como Max Martin e Ryan Tedder. Cada canção aqui faz o ouvinte querer escutá-la repetidamente. 

    As primeiras duas (e excelentes) canções do álbum foram rejeitadas por Adele: "Bird Set Free" é co-escrita e produzida por Greg Kurstin, do hit "Hello", e "Alive", o carro-chefe do álbum, foi escrita em parceria com a cantora britânica. Em seguida, a balada "One Million Bullets" emociona, fechando a parte mais séria do CD - essa última lembra as faixas que Sia compôs para Christina Aguilera, nos álbuns Bionic e Lotus, mais calma do que as composições que ganham as paradas. O CD ainda tem mais duas baladas: "Broken Glass" e "Space Between". 

    A partir da quarta faixa, This Is Acting vira uma festa: com pegada latina, "Move Your Body" sem dúvida é a que foi escrita (e rejeitada) por Shakira. Já "Unstoppable", a música mais poderosa do CD, lembra "Invincible", que Sia escreveu para Kelly Clarkson, e consegue reunir no refrão todas as palavras para empoderamento imagináveis e a metáfora mais legal, "sou um Porshe sem freios", para quem quer se sentir confiante. Seguem as duas composições rejeitadas por Rihanna e outras duas boas faixas: "House On Fire" e "Footprints". Pulga atrás da orelha: para quem seriam essas canções? 

    A maior surpresa do CD é talvez "Sweet Design", que parece escrita para alguma girl band. A música é ruim, um tanto caótica e destoa de todo o conjunto, mas evidencia mais uma qualidade de Sia: além de compor e cantar canções destinadas a algumas das melhores vozes da atualidade, ela também canta como se fosse várias ao mesmo tempo: isso é que é atuação! E a letra, bom, é engraçadinha: fala sobre o doce design do seu bumbum. 

    Nos EUA, o álbum foi lançado ainda com duas faixas bônus: a dançante "First Fighting a Sandstorm", divertida e poderosa canção, e "Summer Rain", que tem uma pegada mais rock. Difícil imaginar como uma música da qualidade de "First Fighting..." ou de "Unstoppable" foram rejeitadas pelos cantores mais graúdos - só o fato de Sia ainda ter 25 canções para mostrar para Rihanna, depois de fechada a tracklist de This Is Acting, explica. Uma pena que "First Fighting" não está presente na versão do álbum que chegará às lojas no Brasil.

    Após ouvir This Is Acting, algumas pessoas podem achar que tantas composições da Sia de uma vez cansam - e cansam mesmo, em uma primeira audição. Ora, todo álbum é uma pluralidade de compositores e produtores, e a Sia é aquela compositora que todo mundo hoje em dia escolhe uma canção para incluir em seu CD, na esperança de que vire um hit. A australiana tem o seu estilo, que todo mundo adora. Mas é fato: os cantores escolhem uma canção ou duas, e elas se destacam no conjunto. Um álbum todo... bom, pode parecer exagerado no começo. Mas assim que o ouvinte decorar as letras, com certeza, ficará uma delícia de se ouvir. E, para isso, nem será necessário ouvir milhões de vezes - como é muito tentador de se fazer.

    | Gabriel Fabri

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    sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

    Rihanna - ANTi



    Uma das cantoras mais influentes da atualidade, Rihanna lançou gratuitamente o seu novo álbum ANTi após uma longa novela. Acostumada a lançar um álbum novo por ano (período de 2009 a 2012), e por eles colecionar hit atrás de hit, a cantora de Barbados lançou seu novo CD após um hiato de mais de três anos - e um ano após lançar a sua parceria com Kanye West e Paul McCartney, "FourFiveSeconds", que atiçou as curiosidades para o novo álbum.



    Sem incluir nenhuma das canções lançadas ano passado ("Bitch Betta Have My Money" e "American Oxygen" completam a lista), ANTi chegou na internet mais de três meses após o seu anúncio oficial, em outubro. Apesar dos singles não fazerem parte da tracklist, eles foram uma boa prévia do que estava por vir em ANTi: um álbum menos pop, com mais hip hop e reggae.

    O resultado perfeito dessa combinação, que já foi explorada anteriormente por Rihanna em "Man Down", por exemplo, é a faixa que abre o álbum, "Consideration". Com letra feminista e participação da cantora SZA, a canção é deliciosa de ouvir. 

    Essa é a primeira vez que Rihanna não lança um novo CD com uma estrondosa canção pop como single desde Rated R, em 2009, quando ela lançou a obscura "Russian Roulette". E, apesar do sucesso de "Work" na sua semana de lançamento, a parceria com o rapper Drake está longe de ser uma joia como "We Found Love" ou "Diamonds". Entretanto, é uma das melhores músicas do CD, seguindo a mesma pegada de "Consideration". É o ponto alto do novo trabalho.  

    Outros destaques do CD são "Kiss It Better" e "Love On The Brain". A primeira é a única faixa pop do álbum e melhora a cada audição - tem um refrão sexy (em contraste com as outras estrofes, mais fortes) e uma presença suave de guitarra, que dá um charme a mais para a música. Já a outra é uma canção que lembra as divas do jazz, aproximando Rihanna do estilo da Lana Del Rey. Bela e melancólica, é uma balada bem diferente das que a cantora está acostumada a fazer. Muito provavelmente, uma dessas duas canções serão as escolhidas para o próximo single do álbum. São as que têm potencial.

    O resto do álbum, entretanto, não tem brilho. São três interludes desnecessários, um cover sonolento (a canção "Same Ol' Mistakes" é uma regravação de "New Person, Same Old Mistakes" da banda australiana Tame Impala) e uma série de canções esquecíveis. Das músicas restantes, só se salva a deliciosa "Never Ending", balada com pegada meio indie.

    ANTi é o álbum mais experimental de Rihanna e é louvável que a cantora queira se arriscar mais do que o normal - abrindo mão de canções escritas por Sia e Charlie XCX, produzidas por Ne-Yo, Kanye West ou Calvin Harris, por exemplo. Talvez ela conquiste até novos fãs com o novo trabalho, entretanto, Rihanna ficou underground demais nesse CD. Aconteceu o que se temia: as músicas mais legais de ANTi estão em This Is Acting, da Sia ("Cheap Thrlls" e "Reaper"). É, era melhor ter continuado com as parcerias que davam certo.  

    | Gabriel Fabri

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    terça-feira, 26 de janeiro de 2016

    Anomalisa



    Desde o início de Anomalisa, animação dirigida por Charlie Kaufman (Roteirista de Quero Ser John Malkovich e Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças) e Duke Johnson (da série animada Mary Shelley's Frankenhole), há um certo mal estar em cena: com o avião aterrizando, um homem desconhecido segura na mão de Michael Stone, para o seu desconforto na viagem. O toque entre dois estranhos, inocente, sem conotações sexuais, incomoda. É uma fragilidade estranha, banal. Indicado ao Oscar de Melhor Animação, o longa-metragem é assim por toda a projeção: sublinha a banalidade e a melancolia do cotidiano.


    Na trama, Michael (dublado por David Thewlis) é autor de um livro sobre atendimento ao cliente. Ele viaja para uma cidadezinha qualquer para ministrar uma palestra motivacional. No hotel em que se hospeda, ele reencontra uma pessoa do passado, um antigo relacionamento, e, por acidente, acaba conhecendo uma mulher diferente de todas as outras: Lisa (dublada por Jennifer Jason Leigh, indicada ao Oscar por Os Oito Odiados), que desperta a atenção dele por conta de sua voz: é a única voz feminina no filme, já que todas as outras são dubladas pelo ator Tom Noonan.

    O longa-metragem é todo construído em um tom melancólico, mostrando que, embora Michael seja uma pessoa bem sucedida profissionalmente, ele se sente vazio. Tudo ao seu redor parece chato, entediante, um motivo para ficar deprimido. Até que Lisa aparece, mostrando que, por mais triste que Michael possa estar, alguém sempre pode estar pior. Não é a toa que Michael, portanto, tem dificuldades para ensaiar sua palestra para o dia seguinte: qual o sentido de mandar as pessoas sorrirem? Os dois juntos encontram um refúgio para essa tristeza constante, entretanto, ambos sabem que esse momento de breve felicidade, marcada pelas suas inseguranças, não pode durar. 

    Anomalisa defende o adultério do personagem, ao invés de sua fidelidade com a família. Tem cenas de nudez, sexo, masturbação e palavrões, coisas pouco comuns no gênero da animação. E adota um visual "animado" para mostrar o seu oposto, um mundo desanimado. Em seu momento mais belo, o filme faz essa subversão: pega Girls Just Wanna Have Fun, hit de Cindy Lauper, e transforma essa música dançante em uma balada um tanto quanto depressiva - e, nessa tristeza, encontra beleza. Talvez esse seja o ponto forte de Anomalisa: encontrar a tristeza na beleza, e vice-versa. E digo "talvez", pois, em sua simplicidade, a animação não entrega uma interpretação fechadinha - e, assim, obriga o público a se conectar com os seus sentimentos do dia-a-dia, e a refletir sobre eles.  

    | Gabriel Fabri


    quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

    A 5ª Onda



    A primeira sequência de A 5ª Onda indica um filme promissor. Escondida na floresta com uma arma, Cassie (Chloë Grace Moretz, do remake de Claire - A estranha) visita um mercado abandonado em busca de alimentos. Encontra um homem ferido - e armado - e não sabe como deve reagir. Para a surpresa do público, ela reage da pior maneira que poderia: esta aí o indício de que o longa-metragem dirigido por J Blakeson (O desaparecimento de Alice Creed) veio para fazer diferença na "onda" de distopias adolescentes. Entretanto, se essa era uma expectativa do público, ela será frustrada ao decorrer da projeção. 



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  • Baseado no primeiro livro da trilogia criada por Rick Yancey (o terceiro e último livro, The Lost Star, tem previsão de lançamento para ainda este ano), A 5ª Onda é centrado em Cassie e acompanha a personagem desde o seu último dia de vida normal: quando ela tem a sua primeira e atrapalhada conversa com Ben (Nick Robinson), um garoto pelo qual ela se sentia atraída. Na manhã seguinte, após uma estranha nave começar a sobrevoar a Terra, tudo seria diferente: a "primeira onda" cortou dos humanos toda a sua energia elétrica - o que derrubou aviões e impediu até a água encanada de funcionar. 

    À medida que acontecem as próximas "ondas", como são chamadas as etapas de destruição da raça humana, Cassie se vê sozinha, tentando se reencontrar com o seu irmão mais novo, que foi levado para uma base do exército norte-americano. No caminho, encontra-se com Evan (Alex Roe), um garoto atlético que resolve ajudá-la na busca pelo menino.

    A primeira cena do filme, sem dúvida a mais impactante da projeção, tem o propósito de mostrar que a protagonista de A 5ª Onda será o que tem de melhor e mais interessante no filme. Logo, veremos o por quê: como a própria atriz sublinhou em entrevista coletiva para a imprensa brasileira, Cassie era apenas uma garota normal, meio introvertida e preocupada com os estudos e com os garotos, muito diferente das super-heroínas das franquias Jogos Vorazes ou Divergente, por exemplo. Entretanto, logo de início, vemos ela em uma situação extrema. Narrando em primeira pessoa, recurso frequente por toda a trama, ela faz a seguinte constatação, logo após a sequência inicial: "me pergunto o que a Cassie antiga acharia da nova". O público provavelmente ficará com essa afirmação na cabeça, se já não tiver uma resposta pronta para ela. 

    Se o longa-metragem explorasse melhor esse mote - a luta não só para sobreviver ou para salvar o irmão, mas para permanecer humano (Como se destrói uma raça inteira? Tirando a sua humanidade, segundo a protagonista, em um momento de sua narração) - A 5ª Onda poderia ser melhor. Mas tudo no longa-metragem é ou batido ou infantilizado demais, e a própria Cassie parece em momentos ter se esquecido de que ela é só uma garota normal e não Katniss Everdeen (a protagonista de Jogos Vorazes). Isso pois o filme adota o tom de aventura teen, quando poderia ser muito mais intenso do que isso. Às vezes, dá até vontade de participar do fim do mundo também. 

    Para piorar, muitas coisas não convencem. O principal deles é o romance entre Cassie e Evan, que soa tão irreal quanto um conto de fadas. Trazer questões como sexualidade na adolescência, atração, sempre é um tempero a mais, se bem trabalhada. Aqui não é, e A 5ª Onda acaba lembrando um pouco A Saga Crepúsculo, o que não é um bom sinal. Para piorar, há reviravoltas óbvias, soluções fáceis demais e coadjuvantes sem sal, como a exagerada Ringer (Maika Monroe, de Corrente do Mal), incumbida de inserir um discurso feminista no filme, sem a menor sutileza (meio que sinalizando "olha como somos progressistas"), e depois sendo apagada ao longo do resto da projeção. 

    A 5ª Onda soa como uma mistura mal feita de Jogos Vorazes Maze Runner com alguns exemplos óbvios de ficção científica como Guerra dos MundosO Dia Em Que A Terra Parou, embora tenha bons momentos de humor e ação. Tudo isso, já preparando um triângulo amoroso para o próximo filme, é claro. Com certeza será um salto na carreira de Chloë Grace Moretz, mas é uma pena que o longa-metragem não agregue muito à onda de distopias adolescentes. Se depender deste filme, a onda já virou marola.   

    | Gabriel Fabri

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    *O Blogueiro assistiu ao filme a convite do site Mundo Blá

    segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

    Joy: O Nome do Sucesso



    Após duas parcerias com Jennifer Lawrence e Bradley Cooper, em O Lado Bom da Vida e Trapaça, o diretor David O. Russell retorna com o seu bem-sucedido time de atores em Joy: O Nome do Sucesso, um ponto fora da curva na carreira de prestígio do diretor e de seu time de estrelas, que inclui também o veterano Robert De Niro. O longa-metragem escorrega com uma quantidade imensa de personagens mal aproveitados e um enredo pobre e sem sal. 



    O filme é inspirado na história de vida da empresária e inventora Joy Mangano, com foco no desenvolvimento de sua primeira invenção, o Miracle Mop ("Esfregão milagroso", em português). A criação, lançada há 25 anos, permitiu que Joy se tornasse um case de sucesso do empreendedorismo norte-americano: hoje ela possui a patente de mais de cem produtos, incluindo os cabides Huggable Hangers, o artigo de maior venda da história da HSN (canal de televisão destino a venda de produtos). 

    Mas nem sempre foi assim: no longa-metragem, Joy (Lawrence) tivera que abandonar os estudos para cuidar da mãe (interpretada por Virginia Madsen), que passa o dia trancada no quarto vendo novelas, e para tocar os negócios do pai, que tem uma oficina de carros. Além disso, ela tem que lidar com a presença constante do seu ex-marido, que está hospedado no porão da casa; com os afazeres domésticos; e, ainda, precisa cuidar dos dois filhos - tudo isso, é claro, sem dinheiro. Para completar, seu pai (De Niro) resolve voltar para a casa dela, pois está sem lugar para morar após terminar outro casamento.

    Os últimos dois filmes do diretor foram marcados por personagens meio loucos e extravagantes. Aqui, Lawrence não repete o papel de desequilibrada: são os pais de Joy que são meio fora dos trilhos. Talvez por isso, essa seja a atuação menos impressionante da atriz, que ganha aqui um papel menor, apesar de ser ela a principal do filme e ter sido premiada no Globo de Ouro. Os personagens de De Niro e Madsen são muito mais interessantes e o longa-metragem poderia ser muito melhor se soubesse explorá-los com mais profundidade – eles são o único alívio cômico do filme, afinal, algo muito bem trabalhado em Trapaça e O Lado Bom da Vida, mas que aqui fazem falta. Por exemplo: quantas situações o roteiro, assinado por Russell e Annie Mumolo, poderiam ser criadas apenas a partir do fato de que o personagem de De Niro e o seu ex-genro são obrigados a viver juntos no porão? No início do filme, quando Joy divide o cômodo ao meio com um rolo de papel higiênico, a situação para a comédia, para o drama ou para a tragédia entre aqueles dois antagonistas está montada. Entretanto, aquilo não resulta em nada concreto para a trama.

    O roteiro não só esqueceu a situação do pai e do ex-marido de Joy no porão, como criou um monte de personagens sem sal. A vilã do filme – a meia-irmã de Joy – sequer existiu na vida real. Para o que ela serve na trama? A avó, a narradora, também parece perdida no meio de tanta gente. E o encanador, bom, também está lá perdido nessa história, assim como a novela que passa na TV, completamente desconectada da trama.

    Joy: O Nome do Sucesso sofre com o excesso de personagens – o que é uma pena, pois Russell se destacou anteriormente pela direção de atores e, em O Lado Bom da Vida, mesmo com um grande time de atores disputando uma mesma cena, conseguiu um resultado excelente. Aqui, o diretor se perde, e o filme resulta tão desinteressante quanto a programação de vendas da televisão.

    O descaso com os coadjuvantes tem outro efeito grave: ele torna excessivo o foco na personagem de Lawrence. Talvez tenha a ver com o fato de que uma das produtoras do filme seja a própria Joy Mangano, o que torna compreensível que o longa-metragem, quando parece que vai acabar, dá um salto desnecessário para mostrar o quão incrível foi o futuro de Joy, a grande heroína do filme. Suspeito, para dizer o mínimo. Mas vale ressaltar que o diretor considera a personagem de Lawrence uma mescla da verdadeira Joy com todas as grandes mulheres da sua vida, o que é uma perspectiva interessante de olhar a personagem. 

    O longa-metragem tem êxito em pelo menos uma coisa: além de ressaltar a injustiça que é designar às mulheres o papel de "dona de casa", ele mostra a importância da família para a realização pessoal do indivíduo. Afinal, embora seus familiares tenham atrapalhado mais do que ajudado, Joy não fez tudo sozinha. Poderia ter sido mais fácil com o apoio deles, mas talvez nada teria acontecido se ela não tivesse uma sala de estar abarrotada de gente para ver o seu esfregão sendo anunciado na TV.  

    | Gabriel Fabri

    Em tempo, no Youtube é possível ver a verdadeira Joy anunciando a sua primeira invenção:



    quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

    A Grande Aposta



    Títulos subprime, CDOs, derivativos e CDSs são alguns dos conceitos econômicos usados na explicação para a crise do sistema imobiliário norte-americano de 2008, que abalou a economia mundial, gerando desemprego e criando uma recessão cujos efeitos são sentidos até hoje. O excelente documentário Trabalho Interno, de Charles Ferguson, já tratou de explicar como a ganância dos homens de Wall Street, a desregulamentação do setor financeiro e a negligência do governo dos EUA e das agências de risco (que atribuíam risco zero - a nota máxima AAA - a títulos que não valiam nada) destruíram o sistema hipotecário nos Estados Unidos e fizeram o mundo todo pagar a conta. Em A Grande Aposta, longa-metragem dirigido por Adam McKay e indicado a cinco Oscars (incluindo Melhor Filme), a crise é explicada por meio da história real de pessoas que previram a quebra do sistema e, como bons capitalistas, resolveram lucrar com isso.



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    • Baseado no livro A Queda de Wall Street, do jornalista Michael Lewis (autor dos livros que inspiraram Um Sonho Possível e O Homem Que Mudou o Jogo), o filme traz personagens um tanto excêntricos, como Michael Burry (Christian Bale) e Steve Eisman (Steve Carell), dois homens que resolvem investir milhões no colapso do sistema imobiliário norte-americano, considerado um dos mais seguros do mundo (afinal, quem não paga as suas hipotecas?). Brad Pitt e Ryan Gosling completam o elenco. 

      O tema é confuso e complexo, mas o filme de McKay consegue aproveitar isso a seu favor: com humor, coloca a atriz Margot Robbie na banheira para explicar que toda vez que a palavra "subprime" é mencionada, ela significa "merda"; um chef famoso, comparando os títulos que os bancos vendiam a uma sopa de frango velho; ou uma participação mais que especial da cantora e atriz Selena Gomez, explicando a crise em uma metáfora do jogo de Poker. Para o mecanismo da crise e a sua perversidade ficarem claros, o longa-metragem coloca interrupções em que os personagens dialogam com o público, por exemplo. Ou frases de efeito - a mais engraçada, "a verdade é como poesia. Quase todo mundo odeia poesia", soa tão espontânea e sincera que pode arrancar gargalhadas da plateia.

      Mas o filme não é uma comédia, e apesar de se esforçar em ser didático, acaba não sendo muito, uma vez que o tema é realmente muito complexo - e o longa-metragem não é um filme sobre economia. Na essência, estão homens infelizes e gananciosos que desprezam Wall Street e, mesmo assim, agem de acordo com as regras do jogo, visando o lucro pelo lucro, comemorando que estavam certos sobre o sistema fraudulento das hipotecas e o aumento da inadimplência (falta de pagamentos das prestações hipotecárias de suas casas). Mas a obra tem um tom melancólico e político, de que algo muito injusto aconteceu (os pobres, os imigrantes e até os professores foram considerados os culpados pela bagunça dos outros), pelas mãos de muitas pessoas inconsequentes. E não havia muito o que se fazer: tudo o que está ao alcance desses personagens é lucrar com o declínio dos outros. 

      O mérito de A Grande Aposta, apesar de exagerar um pouco na caracterização de seus personagens, em especial no de Carell, é dar uma dimensão mais humana da crise, tentando focar mais em seus personagens do que no sistema: é emblemática a cena em que Eisman conversa com os homens que concediam os empréstimos às pessoas que não poderiam pagar, para ganhar os recheados bônus. Ou quando uma funcionária de uma agência de risco, a Standard & Poor's, é confrontada sobre porque os títulos subprime continuam classificados como AAA: "Se a gente não der, eles viram à esquina e vão na Moody's", afirma a personagem (nada sutilmente caracterizada com óculos escuros que a cegam), em referência à agência de classificação de risco concorrente da Standard. 

      Entretanto, a complexidade do pano de fundo do filme, a crise, pode em alguns momentos dar um nó na cabeça do espectador, que corre o risco de, tentando entender os detalhes, perder a atenção (ou o interesse) nesses personagens. O filme poderia, em algum momento, retomar explicações anteriores - afinal, fazem sete anos que a bolha imobiliária estourou, mas seu mecanismo ainda não é compreendido por todos. Não o faz. Isso não tira o mérito da obra, que exige bastante do espectador, o que é bom por outro lado.

      terça-feira, 12 de janeiro de 2016

      Carol



      Longa-metragem líder em indicações ao Globo de Ouro e ao BAFTA, Carol retrata um romance entre duas mulheres nos Estados Unidos da década de 1950. Ambientado em uma sociedade que considerava homossexualidade como algo "imoral", a obra constrói com delicadeza e muitas nuances o conflito interno das personagens na escolha entre ceder ao próprio desejo ou se curvar diante das exigências do conservadorismo e do machismo em voga. A direção é de Todd Haynes, responsável pela minissérie Mildred Pierce, da HBO.  



      Na trama, inspirada no romance The Price of Salt, de Patricia Highsmith, escrito em 1952 (época em que se passa o filme), Carol (Cate Blanchett) enfrenta um processo de divórcio, onde terá que ser decidida a custódia de sua filha pequena. Ao tentar comprar um presente de natal para a menina, a sua atenção é despertada por uma vendedora da loja, Therese Belivet (Rooney Mara). As duas começam um relacionamento que, pouco a pouco, parece se inclinar a algo maior do que uma amizade.

      A direção de Haynes acerta em construir o romance de Carol e Therese aos poucos, causando certa angústia no espectador, que sente a química entre as duas logo no primeiro encontro delas. Equilibrando ternura e tensão, Rooney Mara brilha na pele da garota tímida que nunca sequer sonhou com um relacionamento homossexual e, de repente, se vê tentada a cruzar as barreiras sociais e parar de aceitar o que lhe é imposto. Sua atuação discreta e comovente é o ponto alto do filme, que também tem outra excelente atuação de Cate Blanchett. Carol é uma personagem melancólica, que não perde a pose de mulher durona, mas que parece definhar por dentro, e Cate consegue transmitir isso, sutilmente, em seu trabalho. 

      Delicado e envolvente, Carol encontra o ritmo certo para o romance, sem deixar de lado as questões sociais. As atuações são o ponto alto, mas não é só isso que é bom. A cena final, por exemplo, é muito simples, mas chega a ser estranhamente magnífica.

      Vale a pena um adendo sobre a autora do livro, publicado no Brasil pela L&PM sob o nome Carol. Antes de The Price of Salt, ela escreveu Strangers on a Train, livro que deu origem à Pacto Sinistro, um dos melhores filmes de Alfred Hichcock. Também é autora de O Talentoso Ripley, que foi adaptado para os cinemas duas vezes, por René Clément m 1960 e por Anthony Minghella em 1999.

      | Gabriel Fabri 

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